março 19, 2011

Você passou por mim nesta manhã

Nem o sol por mim nesta manhã

 

Sei que daqui o pouco que restou

Sobrou pra você num lugar qualquer

 

Eu te tenho meio bicho por minhas esquinas

Gosto de ver-te com os olhos pelos meus dedos

 

Pelas noites pensava mesmo dizer-te coisas

Mas o teu dia sobre o meu partia

12/05/2010. Senador Vergueiro, 00:00. (0)

maio 13, 2010

Na reta do mundo o chão

Donde partem bondes

E se esvaem trilhos

Usar é só da vida

Houve um propósito claro para nomearmos a alienação

Não existe tal coisa como primeira vez, não numeramos acontecimentos

O tempo se sente passar na pele

Tal qual toques que de tanto

Abrigam tudo quanto vai

Entre eu e você há muito mais que causalidade

Não há votação no que concerne ao micro

Teria sim muito o que dizer

Se o que importasse fosse retocar a vida

30 de março, 16:01, 2010.

março 30, 2010

O visível, dentre todos os nossos sentidos, ganhou a primazia da realidade; conseqüentemente o músico ganha em seu ofício a metafísica que invade o possível da modernidade. O som nos conecta com as camadas invisíveis do real e, como um gesto de resistência ao domínio da imagem, nos permite comungar com o não-referencial, nos permite ser em outro modo, estar um pouco no pulso vital dos universos dispensados pelo olho oficial que nos vigia a normalidade. Quantas metamorfoses deixamos de aceitar e quantos mundos afirmamos fruto do engodo por este nosso hábito visual? Sobre esta armação fincamos as condições de nossa segurança, passando a ter de tornar representado visualmente todo o possível, num gesto de distanciamento e taxação que primeiro desconfia, para logo em seguida gerar desconforto ou administração. O possível real tende a ser alheio à ordenação interna do mundo na mente individual. Precisamos divulgar os que ordenam para derivações múltiplas como contra-discurso em relação à ordenação de sistemas fechados, ou melhor, latifúndios da representação. A imagem está atada a afirmação do um, da forma diferenciada, tendo, por isso mesmo, grande capacidade de expressar singularizações, termina, no entanto, a servir de aporte seguro para os limites entre o real e o imaginário. O real mesmo, por sua filiação com a unidade, expressa este traço de nossa concepção. Precisamos viciá-lo com outros impulsos, arrancar ao virtual outras possibilidades. Para além da imagem divina da verdade, a configuração intempestiva do som, multiplicação de harmônicos e séries justapostas de relações entre acordes. Do som ao múltiplo como forma de ética. Da escuta participativa contra o empreendedorismo visionário, da possibilidade de modulações contra a imagem segura da estabilidade.

29, março de 2010, 15:32.

março 30, 2010

Traço o movimento sempre

Inacabado relevo de minha cidade

Natal qual o que se sente abrigo

A ser do instante constante rito

Frugalidade, inconsistência, desencaminho

Estes passos outros que o domínio

De uma linguagem estabelecida em risco

Caio acolhido o abismo do que é fronteira

(Onde habita a possibilidade tornam-se outros)

Mesmo os que preenchem compartimentos sabem

Sorrateiramente não se é o tempo todo desta via

18 de março, Paissandu, 13:39. (1)

março 18, 2010

A noite funda aos poucos se torna o único momento em que a consciência pode dirigir sua força modelar para a abertura entre as diferentes séries do mundo e deixar à vida um sentido. O dia, a pressa, o necessário são forças que o homem impôs ao sol e que, assim, tornou sistematizados os gestos diurnos; dir-se-ia que estes se tornaram alheios ao espírito, do tempo estando desconectados.

A madrugada reina atenta, em constante guerrilha contra o arbitrário (pois que resulta mesmo de sua margem), contra suas conseqüências, no que diz respeito ao dia burocrata, acumulado em consultas (quem afinal determinou que consulta é um bom método de confirmação?). A madrugada resiste aos títulos de nociva e loucura para convencer o corpo de que é livre para sentir e cair, para sorrir e voltar. Mal-dizemos nossas promessas à beira do sono que projetam para o amanhã a vida nova; erramos por pouco o alvo, pois este prometer é a própria fecundidade que o dever, o dia e tudo o mais sistematizado nestes tempos, nomeiam com o a moda em termos de patologia.

Na praia com Lévi

março 18, 2010

Era como se através destes olhos uma brecha multiplicasse

o mundo em sentidos tais que não se dissessem complementares

e como ilha em meio ao caos entrevisse uma ordem que não sabe

se da vontade humana ou de um capricho natural surge qual estampido

a realizar com olhos e sentidos a comunicação geral

brilho minúsculo dentro do qual tudo se aproxima e que segundo alguns é

o marco zero do tempo e do espaço, o princípio mesmo de todo o possível,

grão de areia universal

17 de março, senador vergueiro, 00:17.

março 17, 2010

A noite no Rio

Esfria em tela

Páginas de um livro

“Ai donti bilive in módern lôv”

outubro 28, 2009

Com um toque dos seus lábios, solidão

é a própria noite que se instala

e as duas eu recebo em minha casa

pois tenho pronta uma composição

Ainda que este nome pouco lhe caiba

dado que é abertura e multiplicação

muito mais uma isca ou implicação

que uma obra pronta, congelada

O que exponho é o instante anti-fato

a quase constatação

aquele ser borrado por ser multidão

uma possibilidade pré-captação

Minha habitação é no espaço inusitado

é o que não se suspeita, inominado

mesmo que se busque uma direção

meu dedo não trata de refugiados

não me interessa a lamentação

Venha solidão, que a noite é nosso pátio

que não nos falta espaço

de tanto que nos deixam os pares

com sua obsessão-revolução-recomendação-repetição-predestinação-opinião-inquisição-modernização…

O que tenho para nós são minhas víceras

meu próprio definhamento

não que haja aqui qualquer tormento

mas tudo aquilo que precipitas

Não me entende mal quem vê distanciamento

me interessa por demais a vida para que termine interessado

deixo esse tipo de assanhamento para os tarados

e sigo disposto aos encontros lado a lado

Lua

outubro 27, 2009

Foi com uma orientação própria

Que o mar se inclinou para a terra

Que os grãos aprenderam a crescer

Que o sol se refez na noite em teu brilho

Como acham rumo os navegantes

De mim, que te vejo nova ou minguante

Sei que escapa à hora, ao ano, ao homem

Sei com a mão estendida qual asas gigantes

Sei com a metamorfose de todo antes

Que brilharás teus ciclos na noite eterna

Que o nosso fica mesmo se distante

Conti nu ação

outubro 9, 2009

Caminhar é distribuir o mundo na beira de um precipício

Sendo cada passo o ponto de um encontro único e necessário

Onde padecem sem pena a alternativa e a reflexão

Impelidas sempre pelo desequilíbrio a contemplar o adiante

Intempestivo ou sereno

Passo


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