A noite funda aos poucos se torna o único momento em que a consciência pode dirigir sua força modelar para a abertura entre as diferentes séries do mundo e deixar à vida um sentido. O dia, a pressa, o necessário são forças que o homem impôs ao sol e que, assim, tornou sistematizados os gestos diurnos; dir-se-ia que estes se tornaram alheios ao espírito, do tempo estando desconectados.
A madrugada reina atenta, em constante guerrilha contra o arbitrário (pois que resulta mesmo de sua margem), contra suas conseqüências, no que diz respeito ao dia burocrata, acumulado em consultas (quem afinal determinou que consulta é um bom método de confirmação?). A madrugada resiste aos títulos de nociva e loucura para convencer o corpo de que é livre para sentir e cair, para sorrir e voltar. Mal-dizemos nossas promessas à beira do sono que projetam para o amanhã a vida nova; erramos por pouco o alvo, pois este prometer é a própria fecundidade que o dever, o dia e tudo o mais sistematizado nestes tempos, nomeiam com o a moda em termos de patologia.